João Massano contra proposta do Governo sobre multas por manobras dilatórias
O bastonário da Ordem dos Advogados admitiu estar receoso que a aplicação de multas funcione como um mecanismo de pressão sobre os advogados, condicionando assim o exercício da defesa.
O bastonário da Ordem dos Advogados não concorda com a proposta de lei do Governo que determina a aplicação de multas até 10.200 euros a quem atrase processos judiciais e considera que esta não é a solução mais adequada combater a morosidade judicial. Em declarações à Renascença, João Massano rejeita ainda que a classe seja responsabilizada pelos atrasos e que não pode servir de “bode expiatório”.
“A solução não é encontrar bodes expiatórios, não é eleger os advogados como bodes expiatórios. Concordo que possam haver situações que têm de ser melhoradas e devem ser melhoradas, agora não me parece estar a legislar em cima de um caso concreto, seja algo que nos conduza a uma solução justa para todos. Porque no fundo o que eu receio é que este tipo de multas, funcione no fundo como uma coação relativamente aos advogados”, disse João Massano.
O bastonário da Ordem dos Advogados admitiu estar receoso que a aplicação de multas funcione como um mecanismo de pressão sobre os advogados, condicionando assim o exercício da defesa.
“O que nós propusemos foi a criação de uma lista de advogados que ficariam com o encargo de estar como uma reserva do processo, conhecendo o processo e garantindo se necessário, para atos específicos, uma garantia efetiva”, sugeriu Massano. O objetivo é evitar situações em que um advogado é chamado de repente para defender um arguido em processos extensos e sem tempo para se preparar.
A proposta de lei em causa já tinha sido aprovada em dezembro do ano passado em Conselho de Ministros e acolhe a sugestão de um grupo de trabalho criado pelo Conselho Superior de Magistratura (CSM), que apresentou no ano passado o relatório “Megaprocessos e Processo Penal: Carta para a Celeridade e Melhor Justiça”.
Segundo o Público, já existia um regime que permitia a aplicação de multas neste tipo de situações, mas estava limitado a um máximo de 1.539 euros, o que era considerado insuficiente.
A nova norma prevê que a multa terá de ser paga até 10 dias depois da decisão que a tiver fixado se tornar definitiva e, não sendo paga nesse prazo, sofrerá um acréscimo de 50%. Os advogados que foram condenados por manobras dilatórias duas vezes no mesmo processo arriscam inquéritos disciplinares.
No relatório do CSM onde se propõe esta medida, é referido que o que se pretende é “um instrumento eficaz e dissuasor, equiparado ao da multa por litigância de má-fé”.
Está ainda prevista a nova figura de “defesa contra as demoras abusivas”, que visa responder a “requerimentos e incidentes manifestamente infundados na fase de recurso, apenas para evitar que a decisão se torne definitiva”.
Além de os magistrados poderem aplicar as multas até 10.200 euros, o coletivo de juízes poderá enviar logo o processo para o tribunal que o julgou, para ser executada a decisão, e decidir o incidente separadamente”.
Na proposta é também criado para os juízes um dever de gestão processual e são reforçados os respetivos poderes na direção da audiência, ficando expresso que deve proibir, “em especial, todos os expedientes manifestamente impertinentes ou dilatórios”.
“Já o dever de gestão processual obriga o juiz titular do caso a ‘dirigir ativamente o processo e providenciar pelo seu andamento célere, promovendo oficiosamente as diligências necessárias ao seu normal prosseguimento’”, é referido.
No diploma, é também sugerida a alteração do “regime do incidente de recusa de juiz, no sentido de esta estabelecer que a apresentação do requerimento de recusa não suspende os ulteriores termos do processo, podendo o juiz visado, no decurso do incidente, praticar os atos a que haja lugar, ainda que não urgentes”. Esta alteração é justificada pelo Governo devido ao “baixo número de casos em que o incidente de recusa obtém provimento e do prejuízo que a sua mobilização meramente dilatória pode causar ao bom andamento dos processos”.
“Para acabar com uma prática, que por vezes, ocorre — em que os juízes leem a sentença, mas depois não a depositam na secretaria, logo a mesma não é notificada às partes — passa a prever-se que só excecionalmente a entrega se pode efetuar nos 10 dias seguintes à leitura e, se tal não acontecer, tudo se passa como se a decisão não tivesse sido proferida”, refere o Público.
O Governo quer também tornar obrigatória que a acusação do Ministério Público seja estruturada em artigos.
Fonte: Eco
Foto: Hugo Amaral/ECO